"Tudo
posso naquele que me fortalece"
Um estudo exegético de Filipenses 4:13
Um estudo exegético de Filipenses 4:13
de Dennis Downing
Será que o Cristão pode fazer de tudo? Será que
temos, por meio de Cristo, poder para realizar qualquer feito? O que é que
Paulo quis dizer com esta declaração ousada?
O contexto imediato
Esta passagem tem sido entendida por muitos
Cristãos como uma afirmação geral de que realmente “tudo” podemos fazer. Como
sempre é necessário observar o contexto da passagem. O contexto imediato (Fil
4:10-20) indica que Paulo está tratando de necessidades pessoais. Podemos ver
isso quando ele usa frases e termos como “pobreza” (v. 11) “fartura e fome”;
“abundância e escassez” (v. 12); “dar e receber” (v. 15) e “necessidades” (vv.
16 e 19). Todas estas palavras e frases tratam de necessidades físicas e
imediatas como comida e moradia. Ele pessoalmente passou por necessidades
nestas áreas e está mostrando como Cristo lhe deu força para enfrentá-las.
Paulo poderia, de repente, sair deste contexto para
formalizar uma afirmação sobre todas as necessidades em geral. Ou, como alguns
entendem pela frase isolada, ele poderia dizer que, por meio de Cristo,
consegue realizar de tudo. No entanto, para fazer isso, seria esperado que
Paulo desse algum sinal de tal mudança. A ausência de uma sinalização não
impede de forma categórica esta possibilidade. Mas, sendo que o contexto imediato
é satisfatório, e que não há evidência clara dele ter intencionado uma
afirmação mais geral, devemos concluir que o ponto dele neste versículo é de
que, dentro das necessidades pessoais (embora estas necessidades sejam
enormes), com Cristo, ele terá tudo que precisa para lidar com elas.
Como Paulo usava “tudo”
Ajuda-nos a entender que Paulo, como autores e
oradores modernos, às vezes usava o adjetivo “tudo” (gr. panta de pas) para se
referir à maior parte ou à maioria de uma categoria, sem necessariamente se
referir a algo em sua totalidade. [1]
Podemos ver este tipo de uso em passagens como 1
Cor. 9:22 “...Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos,
salvar alguns.” Paulo não quis dizer que havia se tornado absolutamente tudo
para com toda a humanidade. O ponto dele foi de que ele se esforçou, negando
seus próprios interesses e tendências, para influenciar todos aqueles com quem
ele teve contato e oportunidade.
De forma parecida, em Colossenses 1:28 Paulo
afirmou “o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo
homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em
Cristo”. Aqui Paulo não quis dizer que ensinava literalmente todos os homens
existentes, nem que aquilo que ele ensinava fosse toda a sabedoria existente. O
ponto dele, novamente, se restringia àqueles dentro do seu raio de alcance e à
sabedoria necessária e suficiente para a plena vida em Cristo.
Da mesma forma, em Fil 2:21, ao dizer “pois todos
eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus.” Paulo não estava
se referindo à totalidade da raça humana, nem a todos da cidade de Roma, onde
ele se encontrava (Fil 1:13). Ele estava se referindo a muitos outros que não
se preocupavam com seus interesses da forma como Timóteo havia feito. Mas,
presumimos que Paulo contaria entre aqueles em quem confiava pessoas como
Epafrodito (4:18) e os da casa de César (4:22). Portanto, ele não estava relegando
nem a raça como um todo, nem toda a população de Roma ao grupo dos que “buscam
o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus.” Ele quis dizer que muitos
eram assim, porém Timóteo era diferente.
De igual modo, ao dizer em Fil 4:13 “Tudo posso
naquele que me fortalece”, Paulo não quis dizer “tudo” num sentido absoluto. O
que ele quis dizer era que, de todas as coisas que havia passado que
necessitavam de poder para enfrentar, como pobreza, fome, escassez e
necessidades, Cristo supria toda esta força que ele precisava. É neste sentido
que Paulo escreveu “Tudo posso naquele que me fortalece”. Pelo que já havia
passado, Paulo tinha confiança, e quis passar esta mesma confiança aos Cristãos
em Filipos, de que Cristo havia de suprir toda a força que eles precisavam,
seja qual fosse a situação. É por isso que ele encoraja os Cristãos em Filipos
com as palavras “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir,
em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (4:19).
O foco da passagem
Embora muitas traduções modernas como a NVI, ARA e
BJ traduzam o verso praticamente igual como “tudo posso naquele que me
fortalece”, aqui a NTLH traz uma tradução bastante interessante “Com a força
que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação”. Esta tradução é salutar,
pois coloca a ênfase em Cristo e demonstra que o objetivo não é as conquistas
do homem e sim sua capacitação para, com Cristo, enfrentar as situações, tão
adversas quanto forem, que a vida traz.
É um eqúivoco pensar que o ponto de Paulo é que,
com Cristo, ele pode alcancar grandes realizações ou conquistas. Paulo, embora
falando das coisas que fazia por conta própria, já descartou a imporância das
grandes realizações pessoais. Em 3:4-8 Paulo relembrou suas grandes conquistas
em nome do zelo religioso. Daí, ele mostrou como o simples conhecer e comunhão
com Cristo eram muito superior a todas as suas conquistas (3:8,10).
Dificilmente Paulo agora estaria chamando a atenção dos Cristãos em Filipos
para a idéia de realizar grandes coisas, mesmo com Cristo. O ponto de Paulo é
de assegurar estes irmãos de que, na abundância ou na adversidade, Cristo os
faria fortes o suficiente para lidar com qualquer situação, permanecendo fiéis
a Ele.
Perigo de interpretação
Existe pelo menos um perigo de uma interpretação
demasiadamente genérica deste versículo. Crentes podem ficar frustrados ou
duvidando das promessas de Deus se tentarem coisas que consideram dentro da
vontade de Deus, mas falharem. “Cristãos frequentemente anunciam, ‘Tudo posso
naquele que me fortalece’, para assegurar a outros (e a eles mesmos) que podem
ser bem sucedidos em empreendimentos para os quais eles podem ou não ser
qualificados. Fracasso subsequente os deixa transtornados com Deus como se ele
tivesse quebrado uma promessa!” [2]
Se “tudo posso naquele que me fortalece” significa
que posso realizar qualquer obra ou feito, desde que seja algo que Deus
teoricamente ia querer, então haverá muita frustração, pois nem sempre Deus de
fato faz tudo que pode. Deus podia ter evitado que Cristo morresse na cruz (Mat
26:53). Certamente Ele não queria que Cristo tivesse que morrer na cruz. Mas,
por causa do grande amor dEle por nós (outro aspecto da sua soberana vontade),
Ele permitiu. Se nem Deus sempre faz tudo que pode e tudo que quer, podemos
concluir que nem tampouco o homem fará, ou que Deus o fará por meio dele.
A Paulo, um homem de fé sincera e poderosa, foi
negado algo bom e desejável que pediu ao Senhor – uma cura. Em 2 Coríntios
12:8-9 vimos que, apesar de toda sua fé e amor ao Senhor, Paulo não recebeu o
que queria. Tudo posso naquele que me fortalece? Sim, se for da vontade de
Deus.
Paulo tinha o dom de curar e curou muitas pessoas,
chegando a curar todos numa ilha inteira (Atos 28:7-9). Mas, houve ocasião em
que Paulo não pôde curar um discípulo próximo a ele, Trófimo (2 Tim 4:20). Tudo
posso naquele que me fortalece? Sim, dentro dos limites que Deus estabelece e
permite. Haverá ocasiões em que vamos querer fazer coisas boas, até coisas para
Deus, mas não conseguiremos, porque não era a vontade de Deus naquele momento,
ou naquela situação, ou com aquela pessoa.
A respeito desta passagem D.A. Carson alerta: - Uma
antiga preferência é Filipenses 4.13: "... tudo posso naquele que me
fortalece". O "tudo" não pode ser completamente ilimitado (e.
g., saltar sobre a lua, resolver "de cabeça" complexas equações
matemáticas ou transformar areia em ouro); portanto, a passagem geralmente é
exposta como um texto que promete aos crentes a força de Cristo em tudo o que
eles têm a fazer ou em tudo o que Deus lhes ordena que façam. Sem dúvida, este
é um conceito bíblico; contudo, no que se refere a esse versículo, dá-se pouca
atenção ao contexto. O "tudo" aqui consiste em viver alegre em meio a
fartura ou fome, em abundância ou escassez (Fp 4.10-12). Seja qual for sua
situação, Paulo pode lutar com alegria por meio de Cristo, que o fortalece. [3]
Concluímos que o ponto de Paulo em Filipenses 4:13
quanto àquilo que ele pode fazer se refere à força para enfrentar situações que
a vida traz a ele, especificamente no sentido de necessidades pessoais. Mas a
ênfase não está nele só, e sim nAquele que lhe dá esta força – Cristo Jesus. O
versículo pode ser dividido em duas partes “tudo posso” e “naquele que me
fortalece”. O mundo declara com orgulho e confiança “tudo posso” e pronto. O
Cristão corrige, com humildade temperada pela fé em Jesus “Sei que enfrentarei
muitas dificuldades nesta vida, e que sozinho seria derrubado, mas, ‘Com a
força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação’.”
Hoje em dia os Cristãos ainda enfrentam as
incertezas do desemprego, o medo da violência e da doença. É preciso
assegurá-los de que, com Cristo, podemos lidar com qualquer situação, não
importa quão adversa for. Podemos confiar em Deus de que Ele nos dará a força
que precisamos. Basta caminharmos junto a Jesus.
E o “tudo” que podemos fazer?
Alguns ainda querem saber, "o homem pode fazer
tudo o que ele precisa fazer?" Até isso, na verdade, é relativo. O homem
às vezes pensa que precisa fazer algo, tenta fazer e se frustra quando não
consegue. Ele declara que Deus não existe, ou reclama que Deus não ouviu suas
orações. Mas, Deus muitas vezes sabe que há uma grande diferença entre o que o
homem pensa que precisa e o que ele realmente precisa. Quando era jovem namorei
uma moça e pensei que precisava casar com ela. Não deu certo. Acabei esperando
até quase 40 anos de idade para casar. Hoje, sei que Deus me deu, graças à sua
vontade que é sempre melhor, a esposa que eu realmente precisava.
Dentro da vontade soberana (e para nós muitas vezes
misteriosa) de Deus, sim, diria que o homem pode fazer o que precisa. Mas, esse
fazer nem sempre será o que ele quer. Prova disso é que há muita coisa que,
além de poder fazer, devíamos fazer, mas nem sempre fazemos.
Talvez a grande questão não é se Deus me capacita
para fazer tudo que preciso. Dentro da soberana vontade dEle, Ele sempre
capacita. O problema é que eu nem sempre quero fazer tudo para o qual Ele me
capacitou. Talvez para Deus parece que queremos saber se podemos fazer de tudo,
quando tão pouco fazemos com o “tudo” que já podemos. Que Deus nos ajude a,
como Paulo, nos contentarmos não só com aquilo que Ele nos deu, mas com aquilo
que Ele nos capacitou a fazer, e esmeremo-nos ao fazê-lo.
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